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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Os Melhores da Década


Quem não gosta de uma lista?Que o diga Rob Gordon! Por isso o cenas resolveu fazer a sua própria lista dos 10 melhores filmes da década.Sempre dificil,e com uma generosa dose de subjetividade porque querendo ou não os gostos entram na jogada!Portando não será uma lista com classificações,são os 10 melhores e ponto,sem primeiro,segundo lugar,cada um que de a sua posição!

AS HORAS
O livro de Michael Cunniham é fantástico e a adaptação para o cinema pelo ótimo David Hare é primorosa. Tudo se encaixa no longa,direção,edição,fotografia,direção de arte, a maravilhosa trilha de Phillp Glass,mas o que realmente impressiona é a atuação do casting,Julianne Moore como Mrs Brown tem a melhor atuação da década!

DOGVILLE
Lars Von Trier faz uma obra-prima ao ir fundo no distanciamento bretchiano, através do simbolismo teatral ele conta sua história no local onde magia e realidade andam juntas,no cinema. Quem mais faria uma cidade desenhada com giz ganhar vida na tela! Ótima fase de Nicole Kidman também.

A PROFESSORA DE PIANO
Michal Hanake e Isabelle Huppert,como dar errado?Sufocante,tenso,angustiante,sádico e obrigatório. Trata-se de um filme de ator,o diretor austríaco permitiu a atriz criar e mergulhar fundo no universo perverso da professora.

CIDADE DOS SONHOS
Depois de Twin Peaks, Cidade dos Sonhos foi que alçou o diretor a estrela pop,listas para entender o filme foram criadas nos EUA. Bobagem pura,é só embarcar no enredo policial surrealista e se deliciar com a nova estrela em ascensão Naomi Watts. Silencio,silencio,no hay banda,no hay orquesta já se tornou uma das frases mais famosas do cinema.

ENCONTROS E DESENCONTROS
Muito melhor que seu filme de estréia, Sophia Coppola acertou a mão nos atores escolhidos para personagens principais,o então decadente Bill Murray e a desconhecida Scarlett Johanson, nas cores pastéis do universo habitado pelos personagens,pelo tempo estendido das cenas,pela trilha melancólica. Assitir sozinho o filme numa sessão no meio da tarde com 2 ou 3 gatos pingados é desolador e impossivel de não se sentir como o casal.

EDIFICIO MASTER
Vale pelo simbolismo de ter Coutinho voltando com força ao cinema,pelo seu estilo de documentário de achar personagens únicos e extrair deles o mais interessante.

CINEMA,ASPIRINAS E URUBUS
Belíssimo,fotografia ímpar e o nordeste não é apenas um cenário escolhido como modinha para que o filme fosse feito,é personagem também,os personagens,o road movie tudo se encaixa perfeitamente!

BASTARDOS INGLÓRIOS
Tarantino virou muito pop e seus filmes super produções como o caso de Bastardos Inglórios,com elenco espetacular várias locações. O longa é espetacular cinematograficamente e Tarantino salva os filmes históricos de si mesmos!

MATCH POINT
Woody Allen faz sua grande obra prima ao decidir sair de Nova York. O conceito trágico de destino que o instiga em suas peças e em alguns de seus filmes encontra a forma perfeita ao relacioná-lo com o trágico em Dostoiévsky. Brilhante!

O CAVALEIRO DAS TREVAS
Sempre tem de ter espaço para um blockbuster e O Cavaleiro das Trevas é o escolhido. Filme bem feitinho,Cris Bale já tinha se mostrado um bom Batman,Michael Cane como Alfred cria um contraponto blasé na medida para o intenso Bruce,mas claro que o longa não seria nada sem o personagem do Coringa,pontos para o entendimento do roteirista para o vilão,mas aplausos calorosos para a contrução inacreditável por parte de Leadger!






sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2


O que faz o herói?O que é preciso?Qual a diferença entre ele e a humanidade em geral?Eu poderia citar alguns teóricos,entre eles Campbell,falar da Arete,entretanto tio Ben ainda possui a melhor definição : "with great power comes great responsability". Grande responsabilidade...um artista não deve ficar preso a regras da sociedade,ele deve provocar, abalar de alguma maneira nossa visão de mundo,pode ser através de um soco no estômago,ou através da delicadeza,todavia ele não deve ser irresponsável. Padilha é irresponsável com Tropa de Elite 2. Pode-se argumentar que trata-se de ficção e não realidade,como uma revista cultural o fez quando do lançamento do primeiro, o comparando com Cobra,filme trash de Stalonne,oras só alguém muito ingênuo acharia que a industria cinematográfica norte-americana não possui uma ideologia!No caso,o americano médio,o homem comum com garra e vontade,aquele mesmo que construiu a nação.No caso brasileiro...temos todo o cinema viuvo do cinema novo,do cinema verdade da favela e sertão,preocupado em retratar as mazelas do povo,40 anos depois voltar no mesmo cenário,valendo-se da miséria mas discursar sobre ficçao e nada além disto é leviano!
Tropa de Elite é a ficçao no momento em que carrega nas tintas,quando constrói o cliche e chapa o conflito,e é problemático também pelos mesmos motivos.
Não estamos mais na favela apenas,no problema do tráfico e usuário, o foco é o sistema,a corrupção generalizada,introjetada na sociedade brasileira,todos os políticos são corruptos,ninguém presta, a esquerda é imbecil e ingênua por achar que ainda é possível sonhar com um mundo melhor veja só através do diálogo e do gesto democrático de eleições ( uma mudança de foco sem duvidas sobre uma visão estereotipada de barbudo comedor de criancinha,agora são todos paz e amor).
Não existe saída,mas eis que temos sim a solução,o herói caído,o herói que completa sua trajetória trágica,que se despoja dele mesmo para um bem maior e sendo assim questiona como Cristo na Cruz "Deus por que me abandonaste?":Capitão Nascimento. Neste capitulo ele sofre,pois sua família é colocada em xeque,sua corporação,sua fé,sua convicção,mas ele termina de pé,mesmo que abalado.
O longa é irresponsável no momento em que a política nao se apresenta como alternativa viável,o coronel do BOPE e seu batalhão são as únicas coisas prestáveis capazes de resolver a situação nacional, mas operando fora do sistema,não seguindo hierarquia,não seguindo as diretrizes governamentais pois tudo é podre.Um filme de ação razoável,se não tivessemos no país uma situação tão delicada como temos em termos políticos : corrupção de norte a sul e impunidade.Ela é real,e está aí por conta do sistema e do povo não politizado. Ao fazer Nascimento o paladino da virtude estamos abrindo brecha para algo assustador,um messias que venha nos salvar de nós mesmos.Exagero?Não,quando boa parte da sala vibra aplaudindo e gritando o murro que o capitão/coronel dá em um politico corrupto.Momento de catarse total e bem,já diria Bretch que conscientização e catarse não andam juntas.
O longa rende boas discussões éticas,politicas sobre nossa realidade para aqueles que vão assisti-los com olhar distanciado,mas quantos aceitam o personagem como um herói a ser achado na vida real?O golpe,Hitler,entre muitos outros episódios estão aí para provar.
A História acontece como tragédia e se repete como farsa,e estamos sempre atrás de príncipes,meus irmãos!

domingo, 17 de outubro de 2010

Como Esquecer


Como Esquecer
se insere numa nova safra de filmes nacionais que positivamente ampliam o leque de temas a serem abordados,neste caso o homossexualismo,tópico ainda timido em produtos nacionais cinematográficos,inexistente na tv (personagens gays castos sem uma vida afetiva digna de nota,assexuados não podem ser considerados).Por reconhecer esta parcela da população nacionalmente com elenco conhecido,fator que atrai publico,o longa já ganha pontos positivos,entretanto filmicamente deixa a desejar em vários aspectos.
O roteiro é adaptado do romance homonimo,os roteiristas optaram por manter a literalidade na versão cinematográfica o que torna os diálogos em alguns casos duros,engessados,e por também manter o fluxo de pensamento de Julia,a personagem principal, em voz off,dando um tom piegas e maçante em muitos momentos,por tornar tudo muito literal e repetitivo. É possível compreender de onde o fluxo de pensamento intenso vem,Julia é professora de literatura inglesa,o nome de Virginia Woolf é citado durante uma das cenas,vale lembrar que os romances da autora valem-se e muito deste diálogo do inconsciente,a grande dificuldade é como transformar esta voz interna em algo concreto na tela,uma maneira muito feliz foi a do longa As Horas,guardadas as devidas diferenças de estilo,história entre o filme ingles e o nacional,o roteirista deixou a força latente da personagem justamente para as atrizes,na interpretação,coisa que seria sim possível para Como Esquecer,pois a personagem mais bem construída e estruturada é Julia interpretada por Ana Paula Arósio,ao invés de tanta narração em off da atriz era possível deixar em nuances,em opções cênicas a dor da personagem; a atriz global mostra amadurecimento em sua interpretação e conseguiria bancar uma opção mais ousada de personagem.
Outro ponto negativo do roteiro são as lacunas deixadas,fios soltos que não se amarram,personagens jogados sem propósito,e o tom drama lésbico cliche impresso,dramático ao extremo,falta muitas vezes delicadeza na condução da história.
Apesar destas falhas reitero a importância de sua realização,ao entrar na sessão ontem a noite verifiquei o publico misto de héteros e gays,com predominância do segundo grupo,existia uma excitação normal na platéia,extremamente participativa,por ser algo novo e diferente de se ver em circuito nacional, poder ter a real identificação com aquele que esta na tela é algo mais raro para o publico GLTB ( toda história boa é universal,mas muito fácil quando se é hetero e todas as histórias de amor,drama são feitas neste padrão).


sábado, 18 de setembro de 2010

Reflexões de um Liquidificador

É gratificante ver o cinema nacional se libertar da polaridade sertão-favela,pois se nos anos 60 existia uma estética muito precisa embasada num contexto político o cinema da retomada a subverteu transformando-a em fetiche, estes locais,esta condição brasileira banalizou-se completamente.
Reflexões de um Liquidificador se insere na safra de longas nacionais com vertente mais indie,que flertam com o absurdo,com o comico. O tal objeto é narrador e personagem principal junto com a ótima Ana Lucia Torres,uma dona de casa simpática que tem como confidente e cumplice seu velho liquidificador,dos tempos de dona de boteco juntamente com seu marido,Onofre. O filme é um delicioso thriller,no qual o mote é o sumiço do esposo de Dona Elvira.
O suspense,todavia,é apenas a desculpa para André Klotzel falar sobre existencia. O Liquidificador quando era apenas um objeto era mais feliz exatamente por ser inanimado,por ser ignorante das complicações do ser,ao obter consciencia o pobre tem de lidar com as consequencias de seus atos e de outros,ele aprende o que é desejo,morte,sobrevivencia. Não é preciso ir muito longe,a cozinha de uma casa de subúrbio já é o mundo.
Vale dizer que Reflexões de um Liquidificador é um filme de atores,com casting preciso,os personagens tipos, estranhos, dão o tom do longa,destaque para Ana Lucia Torres, Selton Mello como liquidifcador e Aramis Trindade como o bizarro investigador Fuinha.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Dois Mundos

Antes de começar a escrever este texto fecho os olhos e me deixo ser levada pelos sons que tomam conta deste sábado calmo. Um passarinho em alguma arvora próxima pia, alguns carros passam na rua,uma moto com o motor desregulado faz um barulho insuportável, longe consigo distinguir um ônibus,minha mãe mexe em alguma coisa na cozinha,nos talheres provavelmente por causa do barulho,metálico, meu pai passou no corredor arrastando seus chinelos,som arrastado,como vento baixinho e agora a TV está ligada,parece uma melodia,estaria meu pai vendo um de seus filmes de cowboy?ou seria apenas Tom e Jerry? Você lendo o texto, experimente esta sensação, ouça o que esta ao seu redor,e agora imagine e se todo este barulho desaparecesse? E se só te restasse o silencio?

“Dois Mundos” retrata o universo dos surdos, não é um documentário de imagens,mas de sons,sinestésico. A diretora Thereza Jessouroun explora de maneira inventiva o seu objeto,o ouvir. Já de inicio,nos causa estranheza o som altíssimo da projeção,amplificado ele dói aos ouvidos,atordoa um pouco. Gostaria que fosse um pouco mais baixo,penso eu num primeiro momento,mas quem já teve até uma leve inflamação no ouvido sabe que dentro de locais fechados cria-se como se fosse um vácuo, o som é abafado, e sendo mais baixo,conseguiriam ouvir ao documentário as pessoas com problemas auditivos?Na fila para a sessão noto na minha frente um grupo conversando em libras,um papo animado pelas expressões e pela velocidade de seus gestos,uma conversa silenciosa, fiquei imaginando como seria ir ao cinema e não ouvir nada,qual a percepção de um filme,todo construído para o uso do som sem este ,as imagens por si só e os atores bastam?

Neste documentário não, a presença do som é onipresente, alto, abafado,eco,todas as maneiras de se ouvir e se sentir o barulho, pois quem é surdo pode não ouvir aquilo que está sendo escutado pela maioria,mas ele sente,afinal som não são ondas propagadas no espaço?Ele vibra,eles sentem a vibração,coisa que nós ouvintes perdemos um pouco a sensibilidade de perceber, Thereza coloca a sala de exibição para vibrar com a chegada de um metro na estação,com a musica alta de uma discoteca.

Partindo de vários depoimentos de jovens surdos, a diretora cria um panorama rico de impressões deste mundo,como cada um se relaciona com o silencio e com o barulho quando com o aparelho,como cada um ouve.Eles ouvem diferentemente,os sons não são tão claros,as vezes os menores sons não são captados,mas nós ouvintes captamos, estamos abertos para estas pequenas coisas? Uma das garotas disse que ficou maravilhada em saber que seus passos na areia produziam barulho,podemos ouvir nossas próprias pegadas,quantas vezes você ouviu o barulho de seus pés? A mesma entrevistada relatou que por viver no silencio inventava os sons das coisas. O poeta Manoel de Barros diz que “tudo que não invento não existe”,ela inventou o mundo a sua maneira,preencheu lacunas,o som existe como nós o percebemos,o mundo existe a nossa maneira.

“Dois Mundos” não trata de maneira complacente os surdos, não os transforma em vitimas, eles vêem,ouvem o mundo de outra maneira,nem pior,nem melhor,apenas diferente. E se por algum momento o espectador ficar tentado a se compadecer do grupo,muitos deles nos lembram que ouvir excessivamente,tudo, a todo momento,sem trégua pode ser desgastante, “meditar” um pouquinho,ou seja retirar o aparelho e se apartar do mundo sonoro, pode ser muitas vezes algo revigorante. É verdade,enquanto termino este texto,um carro pára em baixo da minha janela com o som alto, sou obrigada a ouvir funk e sertanejo contra minha vontade,o passarinho em alguma arvore próxima silencia, e sou deixada com este barulho nada agradável.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Dzi Croquettes

O documentário parte da história pessoal da diretora Tatiana Issa,filha de um cenógrafo que acompanhou os Dzi Croquettes no final dos anos 70,para contar a história da irreverente trupe vanguardista brasileira. A partir de registro em super 8 de época e entrevistas com os próprios integrantes e pessoas que conviveram com o grupo durante sua existencia Tatiana devolve aos holofotes os Dzi Croquettes. A partir de sua narração em off inicial na qual explica que para ela, muito pequena, aqueles homens pintados e purpurinados eram palhacinhos ela desenvolve seu documentário. Ou seja existe neles ingenuidade,pureza, empatia, o lado dubio da máscara, artistas enfim a procura da criação,da vida, da alegria através do riso,do grotesco,do incomodo.
Uma época é resgatada, a partir das entrevistas com quem viveu os efervecentes e dificeis anos 70 a diretora passa a limpo um período da história brasileira, o contexto político e cultural do país é explicado as vezes de maneira didática porém nunca enfadonha pois tratam-se de depoimentos vivos e cheios de carga emocional de testemunhas daqueles anos. Para as novas gerações que não conhecem os Dzi Croquettes é como se eles nascessem na tela,naquele momento,um tempo passado,mas que consegue estar vivo na película.
A visceralidade do grupo é sentida no publico e conseguimos compreender o impacto de proporções enormes que eles causaram na cena brasileira,no comportamento da sociedade,entretanto estupefatos nos perguntamos como aqueles palhacinhos underground que encantaram de Elis Regina a Josephine Baker,passando por Lisa Minelli,puderam ficar esquecidos na memória brasileira por tanto tempo.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A mulher de todos

Um prenuncio da porno-chanchada A Mulher de Todos é o segundo longa de Sganzerla. Acompanhamos as aventuras sexuais e Angela Carne e Osso. Não existe um fio narrativo condutor, os amantes perpassam em sua vida e ela como uma boa vamp devora a todos.
Um filme que beira ao non-sense,extremamente viceral.
Sganzerla continua utilizando-se da narração em off para ponturar o filme. Experimenta a fotografia p&b, colore o filme de vermelho e azul como os antigos filmes mudos.
Uma crítica ao individualismo extremo da sociedade "boçal" daquele começo dos anos 70, ao hedonismo exarcebado, como o narrador coloca só existe liberdade individual se existe a coletiva.

Documentário

Primeiro curta de Sganzerla, Documentário é uma homenagem ao cinema. Dois amigos flanam pelo centro de São Paulo sem saber o que fazer,falando de musica,quadrinhos e principalmente cinema.
Se Sganzerla dará um pouco mais tarde uma entrevista dizendo ser preciso destruir Godard neste filme o cineasta frances é referencia,no flanar da camera, no consumo de notícias e cultura pop pelos dois personagens amigos,no carater predominate discursivo do curta.
Um registro da metade da década de 60 brasileira,da juventude um pouco perdida que ve a revolução como maneira de evitar o tédio,que não ve o cinema como manifesto político ( um dos personagens diz que o cinema italiano já era) mas uma maneira de se expressar,não importa se com recursos ou não.
O que conta conclui um dos garotos é o que está na tela.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nosferatu no Brasil

Hélio Oiticica e Ivan Cardoso tinham a idéia de fazer cinema de terror no Brasil, trazer o trash,o underground para a estética brasilis. Cardoso realiza este desejo através de seu filme super oitista, Nosferatu no Brasil, de 1971. Torquato Neto interpreta o famoso vampiro nesta versão pop e divertida.
Dividido em duas partes, o filme foca as andanças de Nosferatu à procura de suas vítimas. O personagem flana pelos espaços,perdido, com foco apenas no sangue,ou seria no sexo?Afinal todas as presas são mulheres sensuais e as pulsões de sexo e morte andam sempre juntas, ao contrário dos vampiros atuais representados de forma sedutoras,lindos, Nosferatu é feio, tosco com sua capa de fantasia,mas é bom de lábia, malandragem carioca adquirida com sua estadia na Cidade Maravilhosa.
Filme mudo, Nosferatu no Brasil narra através de imagens e alguns poucos letreiros que apenas situam o personagem no tempo. Começa em p&b no século XIX com o vampiro tentando seduzir uma garota e sendo descartado, neste caso ele terá de suar literalmente atrás de sua presa, ele a persegue,correndo por um jardim de maneira desajeitada até agarrá-la. No outro momento do filme,já passando férias no Brasil da década de 70, onde as cores explodem na tela, Nosferatu começa a entender a ginga brasileira, e aos poucos ao invés de perseguir vai conquistando suas mulheres,comendo uma a uma para terminar sua estadia rodiado por vamps numa cena de bacanal.
Ivan Cardoso faz um filme cheio de referencias pops, quadrinhos,filmes B de terror, trilha rock´n´roll e jovem guarda, toda esta "geléia geral" como diria Torquato Neto traduzida na malandragem e ginga carioca, ao invés do vampiro que sofre por sua amada, este Nosferatu conquista todas.
O Super 8 afirma a estética tosca sem orçamento, tudo é precário,os letreiros escritos à mão,os atores são os amigos, o figurino comprado em loja de fantasia,o sangue catchup, as locações são externas, as ruas,mostrar o cotidiano daquela cidade. Cardoso e Oiticica tiveram uma grande idéia para solucionar o problema de fazer um filme de vampiro sem orçamento,ou seja sem condições tecnicas de se filmar à noite,assumiram a luz estourada da manhã carioca e apenas adicionaram um letreiro : onde está dia ve-se noite. Apelam assim para a imaginação do espectador, é um filme ludico, uma brincadeira, e retiram do cinema a aurea do real.

domingo, 11 de abril de 2010

O Esplendor do Martírio

Frases em um papel. Um poema? Um manifesto?Todas desconexas,ou não? Assim começa o filme em Super 8mm de Sérgio Péo,takes de pedaços amassados de papel escritos a mão. O filme em si é um poema, de imagens. Registros de uma cidade vazia, arquiteturas imponentes revelando o progresso,mas qual progresso?O tal da ordem?
Esplendor do Martírio é de 1974, ano da “lenta,gradual e segura” abertura política do general Geisel,uma promessa frente às barbaridades do AI5 mas que se revela neste primeiro momento um desastre pois a linha dura não cede,e sim aumenta o cerco. Pirotecnia do governo?Em uma das primeiras cenas Péo filma um negro vestido de forma extravagante cercado por alguns populares, ele cospe fogo e se contorce, seu combustível está em uma garrafa de Coca-Cola,ela merece um close, por que não?Estamos já bem acostumados a cultura norte-americana, para o bem e para o mau ( a CIA não foi braço direito e esquerdo das ditaduras latino-americanas, com medo da influencia cubana?). Faz alguns anos que Caetano Veloso tomou sua Coca- Cola e sua alegria de cores foi-se embora. Os tempos são outros, sobrou o vazio, das ruas,da esperança, dos projetos. Muitos foram para o exílio,outros ficaram e sofreram na própria carne, seriam mártires?Temos nosso personagem herói, muito magro, de cabelos longos,como Cristo, e vestido todo de vermelho ( cor do sangue,cor do inimigo comunista), ele vaga pela cidade fantasma,dança com sua arquitetura. Uma garota abre cartas, um punhal e uma luva militar,cada um de um lado da linha desenhada com tinta branca da avenida. Seria este seu destino,a luta?Ele o encontra em um ato solitário e simbólico. De frente para praia existe uma estátua, a mesma que aparece alguns takes antes em um jornal onde se lê “monumento ao herói”.Monumentação da História. Quem detém o poder cria imagens oficiais, a Verdade. No caso de uma ditadura militar é preciso se perguntar que herói está sendo construído.Se o herói representa um ideal,que ideal é este a ser perpetuado por uma estátua na orla ? Algo que entra em choque com os ideais do herói do filme. Sozinho ele ataca o monumento de forma quixotesca, mas ao invés de parecer violento, se assemelha mais com um ritual,uma dança em volta da figura branca, a câmera acompanha como observador a luta, em câmera lenta vemos o herói se debater contra o monumento depois contra um guarda que vela pela integridade da figura. Ele é preso e levado por uma viatura, poucos transeuntes assistem a cena. O herói e o anti-herói, quem é quem neste jogo de cenas?
Péo termina seu Esplendor do Martírio com cenas de flores, carregadas pela jovem cartomante, e jogadas em um espaço com papéis escritos. Remetem à sepultura. “For long you live and high you fly, but only if you ride the tide, and balanced on the biggest wave, you race towards a early grave”. Um trecho de Breathe, música do album Dark Side of the Moon, que toca inteira no filme juntamente com outra faixa do mesmo disco, Money. Elas criam o clima do curta, pontuam, a sensação de psicodelia criada pela musica juntamente com imagens em câmera lenta ou que esgarçam o tempo nos dão uma noção de irrealidade em algo muito real, a ditadura. Sabendo que os filmes de super 8mm são registros do cotidiano, atos performáticos, é impossível não ficar incomodado com a prisão do jovem pois não se trata se uma cena fictícia, alguém foi preso de verdade. Neste momento somos confrontados com a realidade e as flores logo a seguir dão um tom melancólico à dança ritualística das imagens e do herói. A ultima cena,uma provocação, escrito em letras de forma ONDE VOCE ESTÁ?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Os Inquilinos

Filmes novos de Sérgio Bianchi são sempre acontecimentos pois muitos torcem o nariz de saída antes mesmo de sua exibição. Não para menos, o diretor sempre tão polemico em suas obras costuma receber reações extremadas do público e crítica,reações estas iguais ao clima criado por ele em película, tudo é “oito ou oitenta”, não existe meio termo, o que torna toda história fraca e pueril. Os Inquilinos vem sendo saudado justamente como uma mudança de rumo, o encontro de equilíbrio na sua forma violenta de ver os acontecimentos sociais brasileiros, oprimidos e opressores,muito distintos e separados. Entretanto trata-se mais de uma promessa do que um ato concreto de fato. A boa idéia de montar um terror psicológico com forte carga social esbarra no didatismo sempre presente em seus filmes e na visão simplista dos acontecimentos.
Em uma casa temos a “família de bem”, o chefe de família honesto e trabalhador com dois filhos, na casa ao lado novos vizinhos, jovens e arruaceiros. O longa se passa no mesmo período quando ocorreram os ataques do PCC em São Paulo, 2006,mas aqui a facção recebe o nome de Partido, dando margem a ambigüidade de seu propósito.Quem estava na capital paulista durante o período sabe o terror infligido pelos criminosos a população, principalmente na periferia onde os ataques foram piores, é este clima de medo e insegurança que Bianchi quer explorar na dualidade entre os vizinhos. A família morre de medo da favela, tão perto fisicamente de seu bairro, invadir de fato suas vidas e os novos moradores vindos de lá tornam esta ameaça mais concreta.
Os Inquilinos caminha bem enquanto o terror de ter ao lado possíveis marginais é apenas uma suspeita. Vemos Walter, o patriarca, definhando cada vez mais por não saber como poderá proteger sua família de um perigo tão eminente,por ser tão impotente frente a realidade violenta que o cerca. O espectador se coloca em seu lugar, a duvida crescente sobre a segurança da casa torna-se a do publico, o medo de não reconhecer o outro,de não identificar quem mora ao lado. Entretanto esta realidade hiper aumentada pelas lacunas deixadas pelo roteiro na primeira metade da trama dissipa-se quando descobrimos que sim, os vizinhos são uma ameaça real. A partir deste momento a boa discussão sobre como a cidade grande e o abismo social não permite o contato com o outro perde sentido e torna-se a crônica de uma tragédia anunciada.
Soma-se os clichês abundantes como a cena em que Walter urina em torno de seu muro enquanto olha para seu cachorro,ou o personagem de Caio Blat como alter-ego do diretor, dando voz as mazelas da periferia.
Bianchi tem uma boa idéia, entretanto é incapaz de deixar de lado a verborragia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Lula, o filho do Brasil

Já começa com muitas ressalvas um filme que pretende contar a história do presidente do Brasil em exercício, em ano de eleição presidencial e crucial para manutenção do partido do mesmo no poder. É de se estranhar a campanha do Minc para levar cinema para todos os locais do Brasil que não tem acesso à sétima arte extamente agora e exatamente com Lula,o filho do Brasil.Ou seja, parece difícil fazer uma crítica ao longa que não leve em consideração estes elementos.
A biografia de Lula é impressionante,sem duvidas,e o filme reforça principalmente o lado da pobreza,da dificuldade em se fixar em São Paulo,e também a perseverança e coragem de Dona Lindu e seu filho. O personagem é uma coisa só,não existe nenhum conflito,nenhum desvio,nada,é pura bondade,bom mocismo. Um homem correto,bom ouvinte,pacificador,sem ambições a não ser ser trabalhador e servir a sua gente; esta uma parte importante, Lula não quer se envolver com política,não aprova os esquerdistas,nem os de direita,mas aceita o desafio pois existe uma missão maior,ajudar a classe com salários dignos e liberdade de expressão. Lula é predestinado. Ele sim é o herói da nossa gente!Para contar exatamente esta história Barreto tenta ao máximo diminuir o conflito, toda sua vida até o final dos anos 70 se desenrola em pequenos momentos que não se desenvolvem, a cada problema, a cena seguinte já é de superação. A trilha confere um tom grandioso à jornada heróica.Talvez para diminuir o tom panfletário, a narração se concentre bastante em Dona Lindu, na mãe que sozinha criou todos aqueles filhos e lhes deu educação,carater e profissão. A personagem carismática ( forte e perseverante) serve como a consciencia de Lula,ela guia seus passos sabiamente e não gosta de seu filho flertando com sindicatos pois teme por sua vida, o que reforça um dever maior que o chama; não é à toa que o filme termina com sua morte. Trata-se de um rito de passagem, como se agora Lula conseguisse caminhar sozinho e tornar-se de vez o grande herói brasileiro, o filho de sua gente. Assim Barreto transforma Lula em mito ainda em vida.