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domingo, 12 de dezembro de 2010

Machate


Um filme que tem como vilão Steve Segall merece muito respeito.Imagine todos os filmes ruins que voce já viu,o cliche, o herói solitário que vive apenas para vingar a morte de seus entes queridos,não tem nada a perder,é matar ou morrer,e o vilão é um bandido inescrupuloso que faz qualquer coisa por ganancia. Machate é tudo isto,só que ao invés de levar a sério todo este arcabouço de referencias Bs,torna-se uma grande piada.
Rodriguez refere-se aos filmes policiais latinos da década de 70,uma espécie de faroeste mexicano,aos filmes de luta dos anos 80 que tem Steve Segall como o herói supremo e as gangs como as grandes vilãs, e aos filmes de Tarantino com a violencia exagerada e comica.Assim como seu grande amigo e parceiro, Robert Rodriguez flerta com o kitsch, o alternativo do alternativo,a ultra violencia, o popular, os quadrinhos,para depois juntar tudo num caldeirão pop e voi lá temos os seus filmes.Entretanto o que difere o diretor de seu parceiro de "pulp fictions" é sua pegada mais latina,mas quente,intensa,viceral,enquanto Tarantino é mais cômico,mais ácido em sua violência. Outro ponto de divergencia entre os dois é a sexualidade das personagens. Em Tarantino é mais sugerida,em Rodriguez a sensualidade é reiterada a todo momento,ele brinca com fantasias e todos os cliches possíveis e imagináveis, a dupla caliente e antagônica Michelle Rodriguez e Jessica Alba é coptada pelo ogro sensível Machate e ambas caem de amor pelo "feo", na outra ponta temos a patricinha desmiolada,drogada que não possui muito local na história ao não ser o de fazer Lindsay Lohan rir de si própria.Atores decadentes ou outsiders sempre possuem espaço no imaginário Tarantino/Rodriguez.
Podemos ver Machate também como filme político por discutir um tema muito atual da agenda americana,a imigração. Com a lei anti-imgração do Arizona nos holofotes, o debate sobre como tratar esta minoria que cresce rapidamente no país, não perdendo de foco a liberdade e democracia tão caros a constituição norte-americana ( país feito de imigrantes,aliás) está em todos os meios de comunicação. O longa de Rodriguez coloca o dedo na ferida ao mostrar que a política whasp é financiada pelos próprios cucarachos que eles querem se livrar,ao deixar claro que ideologia nos dias atuais não conta mais e tudo é pensado em lucros e que o problema sério e grave do narcotráfico não é em hipótese alguma um problema para o lado de lá da fronteira.
Mas no final,trata-se mesmo é de uma boa brincadeira!


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mary and Max

Quem vive sem amigos?ou melhor o que são amigos?A belíssima animação australiana Mary and Max foca na relação um tanto improvável entre uma garotinha australiana e um quarentão americano,os dois são sozinhos e irão estabelecer uma delicada amizade através de cartas. Tudo o que possuem um do outro são suas palavras e os anexos enviados a cada correspondencia.
Adam Elliot é o artista multifacetado responsável pelo longa,além de produtor,é o roteirista,diretor e designer dos personagens. Como é colocado no site do filme, diretor e sua equipe tem como referencia alguns fotógrafos para compor a atmosfera da história. Nova York de Max é preta e branca,bem contrastada,fria e triste. A Austrália de Mary é toda em tons de marrom,sua cor favorita, sem vida,apagada. A única cor viva presente em objetos muito específicos é o vermelho,o elo de ligação entre os dois,em raros momentos a paleta de cores de cada um invade a do outro,um pouco de cada mundo que se encontra.
O filme narrado em off começa contando um pouco de cada,de seus gostos,mas ainda é algo impessoal,não aprofunda nos personagens, iremos descobrindo mais da dupla com o estreitamento da amizade,somos cumplices desta jornada, e assim observamos como esta relação os afeta profundamente,os transformando,entretanto a essencia de cada um permanece até o fim,aquilo que os fez continuar a escrever por longos anos.
Num primeiro momento pode parecer um filme melancólico pelo isolamento de ambos,pela dificuldade de adaptação ao mundo exterior,mas ao continuarem o diálogo e se apegarem um ao outro eles lançam base para a consolidação de uma amizade e como tal feita de altos e baixos e que os joga no mundo real,com tudo de bom e de ruim que possa ter.
Para deixar o longa ainda mais interessante o diretor contou com atores renomados para dublagem, Phillip Seymor e Tony Colette dão vida a dupla protagonista lhes conferindo um aprofundamento cenico muito dificil de se ver em animação.
Mary and Max faz qualquer um sair do cinema pensando seriamente em escrever uma carta para o primeiro estranho que lhe cruzar o caminho.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nosferatu no Brasil

Hélio Oiticica e Ivan Cardoso tinham a idéia de fazer cinema de terror no Brasil, trazer o trash,o underground para a estética brasilis. Cardoso realiza este desejo através de seu filme super oitista, Nosferatu no Brasil, de 1971. Torquato Neto interpreta o famoso vampiro nesta versão pop e divertida.
Dividido em duas partes, o filme foca as andanças de Nosferatu à procura de suas vítimas. O personagem flana pelos espaços,perdido, com foco apenas no sangue,ou seria no sexo?Afinal todas as presas são mulheres sensuais e as pulsões de sexo e morte andam sempre juntas, ao contrário dos vampiros atuais representados de forma sedutoras,lindos, Nosferatu é feio, tosco com sua capa de fantasia,mas é bom de lábia, malandragem carioca adquirida com sua estadia na Cidade Maravilhosa.
Filme mudo, Nosferatu no Brasil narra através de imagens e alguns poucos letreiros que apenas situam o personagem no tempo. Começa em p&b no século XIX com o vampiro tentando seduzir uma garota e sendo descartado, neste caso ele terá de suar literalmente atrás de sua presa, ele a persegue,correndo por um jardim de maneira desajeitada até agarrá-la. No outro momento do filme,já passando férias no Brasil da década de 70, onde as cores explodem na tela, Nosferatu começa a entender a ginga brasileira, e aos poucos ao invés de perseguir vai conquistando suas mulheres,comendo uma a uma para terminar sua estadia rodiado por vamps numa cena de bacanal.
Ivan Cardoso faz um filme cheio de referencias pops, quadrinhos,filmes B de terror, trilha rock´n´roll e jovem guarda, toda esta "geléia geral" como diria Torquato Neto traduzida na malandragem e ginga carioca, ao invés do vampiro que sofre por sua amada, este Nosferatu conquista todas.
O Super 8 afirma a estética tosca sem orçamento, tudo é precário,os letreiros escritos à mão,os atores são os amigos, o figurino comprado em loja de fantasia,o sangue catchup, as locações são externas, as ruas,mostrar o cotidiano daquela cidade. Cardoso e Oiticica tiveram uma grande idéia para solucionar o problema de fazer um filme de vampiro sem orçamento,ou seja sem condições tecnicas de se filmar à noite,assumiram a luz estourada da manhã carioca e apenas adicionaram um letreiro : onde está dia ve-se noite. Apelam assim para a imaginação do espectador, é um filme ludico, uma brincadeira, e retiram do cinema a aurea do real.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

500 Dia com Ela

No começo do filme o narrador diz que não se trata de uma história de amor. Bobagem. Não se trata de uma história de amor hollywoodiana, cheia de cliches,personagens perfeitos,happy end e trilha melosa. Neste romance indie temos dois personagens longe do ideal, um relacionamento fracassado e uma trilha arrasadora cheia de melancolia com The Smiths e os onipresentes,fofos porém muito cruéis Belle & Sebastian.
O filme conta o namoro que deu errado entre Tom, um garoto sensível, e Summer, uma garota que não gosta muito de se apaixonar. Quando eles se conhecem no trabalho podemos perceber que trata-se de uma tragédia anunciada, numa inversão de papéis, ele se apaixona perdidamente pela garota que parce ideal,pois compartilha os mesmos "gostos estranhos" - como sua irmã caçula diz- que ele, já ela só quer curtir, mas o garoto permanece com sua amada,talvez esperando o dia em que ela visse que ele era seu principe encantado.
O longa não segue uma narrativa linear, indo e vindo nestes 500 dias, nos mostrando Tom depressivo com o término intercalando com cenas do romance. É bem interessante como o diretor resolve cenicamente o clima do personagem através da luz e do figurino. Summer, está invariavelmente de azul ( blue em ingles pode ser triste) e Tom usa cores mais pastéis, quando leva o fora começa a usar roupas cada vez mais pesadas, ou tons ocres. A fotografia nos dias bons é sempre luminosa,ou amarela verão (summer) e vai esmaindo junto com o personagem.
A pessoa ideal muitas vezes pode não corresponder a realidade.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Onde vivem os monstros


O Oscar esnobou Onde vivem os monstros,uma pena porque é um belo filme ( não tão bom quanto os dois anteriores de Spike Jonze, Quero ser John Malcovich e Adaptação,mas muito bom).

Jonze tinha um desafio e tanto pela frente, transformar um livro infantil de 36 páginas em um longa...não infantil! E conseguiu. Alguns críticos discordam e acham o tom da fita ingenuo. Entretanto a história fala de inocencia e perda desta, é o mundo visto sob a ótica de um garotinho de oito anos.

Max é um menino solitário, sua mãe, divorciada, trabalha muito e sua irmã pré-adolescente não tem muita paciencia para suas brincadeiras. Ele resolve fugir , acaba numa ilha habitada por monstros e é coroado rei por estes. Ser soberano de um lugar implica em responsabilidades, em criar um ambiente perfeito para todos e Max vai descobrir que isto não é fácil.

Jonze através da belíssima fotografia imprime um tom poético ao filme, cria a idéia de que as coisas podem ser mais descomplicadas do que achamos, mas também através de planos frenéticos com camera na mão nos tira desse local idílico para nos mostrar o mundo frenético de um garoto de oito anos que quer tudo ao mesmo tempo agora e não tem noção das consequencias de seus atos. Assim o diretor cria um equilíbrio, que ao longo da história vemos o quão é dificil de manter. A incrível trilha de Karen O dos Yeah! Yeah! Yeah! vem para pontuar este clima, hora mais calma e mais instrumental,hora mais rock com seus famosos gritos.

Saímos do cinema com a impressão que tudo pode ser mais simples,mas também que mesmo adultos somos capazes de infantilidades que atingem os outros.