sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Chyntia ainda tem as chaves

O filme de Gonzalo Tobal é delicado e assertivo. Cynthia ainda permanece com as chaves do apartamento que dividia com o namorado e se aproveita deste fato para passar seus dias em companhia de suas memórias de uma vida feliz. Perdeu-se de si mesma, sua vida foi interrompida com a separação e portanto se apega com afinco àquele espaço ausente de vida a dois,mas que para ela representa seu amado e seus momentos. Cozinha,ouve,musica, dorme, usa as roupas do namorado, e tudo isto com o cuidado de apagar sua existência naquele apartamento,traz a comida que cozinha,os produtos de limpeza ,arruma a cama como a encontrou. Cynthia é como um fantasma,uma sombra.

Absolutamente tudo no curta corrobora para a sensação de deserto que a personagem tem em si, o silencio, a musica melancólica do Smith, os planos abertos que transformam o apartamento em um local muito maior e Cynthia em algo pequeno se esforçando para ocupá-lo. O vermelho presente nela contrasta com as cores frias do espaço. Quanto amor desperdiçado,diz ela em determinado momento.

Entretanto algo incomoda no curta, não é porque Cynthia está melancólica,desgostosa da vida que a personagem não deve ter vida. Minha professora de interpretação costumava dizer que a personagem pode estar triste,a a triz não. É justamente o que ocorre. Falta presença cênica, tudo é esmaecido, os gestos são fracos, os silêncios muitas vezes vazios,não se sustentam. A cena em que prepara a comida,em que corta os pimentões carece de força, suas mãos estão como mortas ao segurar a faca,ao cortá-los , e saberemos ao final do filme a força e a importância que este jantar tem na sua vida. Sua voz é monocórdia, um problema já que a personagem assume a câmera desde o começo,estabelece um monologo conosco de fato, o tom melancólico faz com que o filme perca um pouco das nuances.

Aqui se coloca um problema longe de ser exclusividade de “Cynthia ainda tem as chaves”,com o orçamento enxuto e tempo de filmagem idem, é preciso se perguntar até onde os curtas conseguem bom elenco e tempo para prepará-lo,e se isto muitas vezes não acaba por prejudicar um bom filme. Como resolver este dilema é algo a se pensar uma vez que o curta tem todo um caráter experimental que se perde com os caros longas metragens.Entretanto com um roteiro tão fantástico como este, Gonzalo Tobal poderia apresentá-lo a qualquer atriz que com certeza toparia na hora. Quem não gostaria de ganhar um presente destes?

Festival Internacional de Curtas Metragens

Hoje foi o encerramento do Festival,os meus textos no tablóide foram sobre os filmes : Intervalo,Tanto,Cynthia ainda tem as chaves e Ninjas. Claro que com o tempo curto para a produção dos textos alguns outros curtas vistos ficaram de fora,pretendo agora publicar criticas a respeito. Começo por Cynthia ainda tem as chaves,pois foi feito uma edição que ao meu ver deixou alguns pontos interessantes de fora,seguido por Dois Mundos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Festival Internacional de Curtas

Hoje começa oficialmente o Festival Internacional de Curtas de São Paulo,estou trabalhando no tablóide do festival que será distribuido na festa de encerramento. Serão dias intensos. Existe também o blog atualizado pelos criticos veteranos.
Vale a pena conferir todo o site da Kino e dá um giro pelo festival http://www.kinoforum.org.br/

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mary and Max

Quem vive sem amigos?ou melhor o que são amigos?A belíssima animação australiana Mary and Max foca na relação um tanto improvável entre uma garotinha australiana e um quarentão americano,os dois são sozinhos e irão estabelecer uma delicada amizade através de cartas. Tudo o que possuem um do outro são suas palavras e os anexos enviados a cada correspondencia.
Adam Elliot é o artista multifacetado responsável pelo longa,além de produtor,é o roteirista,diretor e designer dos personagens. Como é colocado no site do filme, diretor e sua equipe tem como referencia alguns fotógrafos para compor a atmosfera da história. Nova York de Max é preta e branca,bem contrastada,fria e triste. A Austrália de Mary é toda em tons de marrom,sua cor favorita, sem vida,apagada. A única cor viva presente em objetos muito específicos é o vermelho,o elo de ligação entre os dois,em raros momentos a paleta de cores de cada um invade a do outro,um pouco de cada mundo que se encontra.
O filme narrado em off começa contando um pouco de cada,de seus gostos,mas ainda é algo impessoal,não aprofunda nos personagens, iremos descobrindo mais da dupla com o estreitamento da amizade,somos cumplices desta jornada, e assim observamos como esta relação os afeta profundamente,os transformando,entretanto a essencia de cada um permanece até o fim,aquilo que os fez continuar a escrever por longos anos.
Num primeiro momento pode parecer um filme melancólico pelo isolamento de ambos,pela dificuldade de adaptação ao mundo exterior,mas ao continuarem o diálogo e se apegarem um ao outro eles lançam base para a consolidação de uma amizade e como tal feita de altos e baixos e que os joga no mundo real,com tudo de bom e de ruim que possa ter.
Para deixar o longa ainda mais interessante o diretor contou com atores renomados para dublagem, Phillip Seymor e Tony Colette dão vida a dupla protagonista lhes conferindo um aprofundamento cenico muito dificil de se ver em animação.
Mary and Max faz qualquer um sair do cinema pensando seriamente em escrever uma carta para o primeiro estranho que lhe cruzar o caminho.

sábado, 7 de agosto de 2010

A Prova de Morte

Finalmente chega às telas brasileiras A Prova de Morte,filme de 2007 de Quentin Tarantino,que faz parte de um projeto maior, Grindihouse, entre o diretor americano e Robert Rodrigues. Os dois amigos prestam uma homenagem aos filmes de horror B da década de 70, cada um dirigiu uma parte e infelizmente estas foram lançadas como independentes uma da outra mundialmente,o que criou este hiato entre o filme de Rodrigues lançado no país faz tempo e o de Tarantino.
Em A Prova de Morte o diretor experimenta livremente sua linguagem cinematográfica,seus traços estão lá : o underground, os rincões norte-americanos,a cultura negra,o pop, a violencia, a ironia, a musica,os diálogos ácidos e banais,mas todos potencializados. A edição do longa,ao invés da agilidade pop de seus outros filmes, é cuidadosamente pensada para expandir o tempo,alargá-lo de tal forma que ficamos ansiosos e inquietos procurando onde entrará o sangue,a violencia. Tarantino sabe disso,ele brinca com nossas espectativas e quando a ação esperada acontece ela é rápida e impactante como se o fosse no momento real. Todos os enquadramentos e tempos são pensados como os movimentos de um predador a espreita de sua presa, ele dá-lhe tempo,sem pressa a cerca,se diverte com a situação. Somos colocados na posição de Stuntman Mike,papel de Kurt Russel, o serial killer que mata suas presas,sempre mulheres,com uma arma poderosa,seu carro envenenado.
A Prova de Morte é ,apesar deste jogo de captura, um filme extremamente rápido,quando nos damos conta ele já terminou e estamos contaminados pela adrenalina da caça. Um ótimo exercício cinematográfico de Tarantino,que assina também a direção de fotografia.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Dzi Croquettes

O documentário parte da história pessoal da diretora Tatiana Issa,filha de um cenógrafo que acompanhou os Dzi Croquettes no final dos anos 70,para contar a história da irreverente trupe vanguardista brasileira. A partir de registro em super 8 de época e entrevistas com os próprios integrantes e pessoas que conviveram com o grupo durante sua existencia Tatiana devolve aos holofotes os Dzi Croquettes. A partir de sua narração em off inicial na qual explica que para ela, muito pequena, aqueles homens pintados e purpurinados eram palhacinhos ela desenvolve seu documentário. Ou seja existe neles ingenuidade,pureza, empatia, o lado dubio da máscara, artistas enfim a procura da criação,da vida, da alegria através do riso,do grotesco,do incomodo.
Uma época é resgatada, a partir das entrevistas com quem viveu os efervecentes e dificeis anos 70 a diretora passa a limpo um período da história brasileira, o contexto político e cultural do país é explicado as vezes de maneira didática porém nunca enfadonha pois tratam-se de depoimentos vivos e cheios de carga emocional de testemunhas daqueles anos. Para as novas gerações que não conhecem os Dzi Croquettes é como se eles nascessem na tela,naquele momento,um tempo passado,mas que consegue estar vivo na película.
A visceralidade do grupo é sentida no publico e conseguimos compreender o impacto de proporções enormes que eles causaram na cena brasileira,no comportamento da sociedade,entretanto estupefatos nos perguntamos como aqueles palhacinhos underground que encantaram de Elis Regina a Josephine Baker,passando por Lisa Minelli,puderam ficar esquecidos na memória brasileira por tanto tempo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Le Petit Nicolas



Basedo nas histórias de mesmo nome, de autoria de René Gosciny ( mesmo autor de Asterix) e desenhos de Jean Jacques Sampé, o filme conta as aventuras de Nicolas e seus amigos na França da década de 50.

O longa se assemelha a Amelie Poulin pela fotografia vibrante e pelo tom da narrativa que cria uma atmosfera onírica,mas ultrapassa o filme conterraneo pelos tipos criados, existe algo de felliniano nos personagens, engraçados, desenhos materializados,às vezes exagerados. Dentro da sala de aula cada um desempenha um papel,o nerd,o desatento,o rico mimado,o gordinho,todos muito caracterizados,já o próprio Nicolas é um garoto comum,tranquilo,sem qualquer caracteristica muito marcada. Ele é o narrador da história, sua posição mais naturalista em relação aos demais pode ser vista como memórias de sua infancia,nós tendemos a nos ver de maneira neutra e aumentamos as características dos que estão em nosso entorno. Assistindo ao filme quem não consegue identificar em seus próprios arquivos muitos daqueles tipos?

A realidade infantil é mágica, coisas muito banais para adultos causam grande espanto e maravilhamento por parte dos pequenos,nada é impossível. Seria mais interessante utilizar a expressão realidade expandida, capaz de enxergar as pequenas belezas do mundo, do que fantasia para se referir ao universo infantil,pois nada é inventado para eles,tudo é muito real.Uma das cenas que explora de maneira muito divertida este universo é quando Nicolas e seus amigos tem uma idéia brilhante para conseguir um dinheiro que necessitam. Um deles aparece com um gibi com a primeira história de Asterix, a pequena aldeia dos gauleses resiste aos numerosos e poderosos romanos graças à poção mágica de Panoramix.Eles retiram o elemento de ficção dos livros e o transportam para o mundo real,criam eles proprios a famosa poção e a vendem; para mostrar que funciona elegem um menino franzino como exemplo,ele bebe o liquido e os garotos pedem para que levante a combi abandonada alguns metros dele,o que o garotinho e seus amigos não sabem é que Nicolas e seu grupo colocaram muitos pesos pendurados do outro lado do carro,não visivel para platéia,qualquer empurrão destabilizaria o automóvel e ele tombaria,é exatamente o que acontece. O feito extraordinário faz com que muitas crianças procurem o bando para adquirir também sua força. Os que tomam a poção tem certeza que são tão invenciveis quanto Axterix e sua aldeia.

Leve,ironico e inteligente Le Petit Nicolas é um filme que serve bem a todas as idades,uma boa alternativa à medíocridade que muitas vezes as crianças são expostas.