domingo, 28 de novembro de 2010

Voce Vai Encontrar o Homem dos seus Sonhos

Parece que filmar fora de casa faz bem a Woody Allen,especialmente na Inglaterra,onde o humor é peculiar como o seu, e existe uma boa dose de fatalismo impregnado na sociedade. Como em Match Point ele explora o tema destino,livre arbítrio e tragédia,só que desta vez de maneira comica,e muito ácida.
Com ares de comédia romantica o longa vai se tornando menos comico e mais tenso ao longo da narrativa. O narrador nada condescendente com os personagens nos guia pela história de final nada feliz ao menos para grande maioria. A trilha de jazz sempre presente nos filmes de Allen servem aqui para pontuar as cenas conferindo-lhes um ar comico,ironico e muitas vezes patético. A direção de arte é ponto forte,com tons pastéis sem vida ou branco asceptico,combinada com casas entulhadas de coisas,que criam uma sensação de sufocamento cada vez mais crescente.
Todos os personagens fracassam,querem atingir o sucesso,criam milhares de planos lindos,mas os destino sempre vem para lhes pregar uma rasteira.Projeções são feitas de maneira calculada,pensadas friamente,entretanto uma avalanche de fatos se sobrepõem as expectativas de todos.
Voce Vai Encontrar o Homem dos seus Sonhos torna-se amargo,de riso dificil por ser tão mundano,de ser tão possivel,de ser muitas vezes nós mesmos.
O narrador abre o filme com a célebre frase "A Vida é feita de Som e Furia" e ao final percebemos que a vida "não significa nada". Mesmo!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

The Kids Are All Right

Casamento não é coisa fácil,diz a personagem de Julianne Moore em determinado ponto do filme. The Kids Are All Right faz um retrato bem humorado desta dificuldade de permanecer do lado de outra pessoa durante tanto tempo. O casal formado pelas ótimas Annet Benning e Julienne Moore está junto a duas décadas e tem dois filhos com o mesmo doador biológico. Levam a vidinha de sempre,rotineira até que seus rebentos decidem conhecer o pai.
O que está em questão no longa são como de dão as relações ao longo do tempo,como construimos laços e como convivemos com nós mesmos com o passar do tempo,ser uma família gay ou tradicional é apenas uma escolha do roteiro que não faz do filme um portador da bandeira gay.
A diretora de forma delicada constrói por meio de símbolos as relações dos personagens,um gesto,um objeto,dizem muito. Dificil nos dias atuais o diretor que se preocupa cuidadosamente em criar simbolicamente estas conexões. A cena em que as duas mulheres estão no banheiro conversando depois de um jantar,escovando os dentes é um exemplo da direção de Lisa Cholodenko. Cena de um cotidiano banal,mas que apresenta todo o peso desta relação para o publico: a rotina do casal, a perda de mistério e sensualidade por parte das amantes (escovar os dentes de pijama mal ajambrados) e um punhado de cabelo de Julienne pego por Benning no ralo,este símbolo retornará no climax .
Não há duvidas que boa parte do sucesso do filme se de pela presença marcante das duas atrizes e do bom desempenho do machão canastra e sensivel de Mark Rufallo.Destaque para Annet Benning na cena climax do filme, a camera fixa em seu rosto,o audio é interrompido e só temos na tela,ela, seus olhos,sua respiração,tudo desmorona em sua volta,mas ela em um jantar com todos da família não pode desabar,toda sua dor,incompreensão, e deslocamento estão em seus olhos e nas pequenas movimentações de boca. Raras as atrizes que seguram tal cena e transmitem o que o diretor quer captar com um close tão agressivo.
The Kids Are All Right não tem a pretensão de ser um grande filme, e talvez por isso ele seja uma ótima diversão.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sonho de Duas Passagens

Silencio. Bruto. Peso. Natural. Palavras que definem bem o longa americano Sonho de Duas Passagens. Quase não há diálogos, o poder é imagético,a floresta onde a história se situa é a força motriz dos personagens,de suas relações com o mundo e entre si. Assunto recorrente no imaginário norte-americano desde o século XIX,a volta a natureza,o abandono da civilização e a conexão com outra lógica social.
Uma família composta por dois irmãos e sua mae mora afastada de tudo e de todos no coração de uma floresta. Os rapazes belos e de traços delicados possuem um lado bruto forte marcado pela existencia no local. As leis da cidade não valem ali,eles vivem a parte do mundo civilizado instituído. Caçam seu próprio alimento, a tv (grande comunicadora e fonte de ligação) não funciona propriamente,fazem suas leis.
O longa se prende na relação destes personagens com o local,o tempo é diferenciado,lento,da própria natureza. A narrativa é da passagem do tempo. Ao perder a mãe, os dois rapazes realizarão uma jornada para cumprir seu ultimo desejo. Não é um caminho de auto-conhecimento,de reviravoltas mas o desejo maior e a responsabilidade de algo muito maior.






sábado, 30 de outubro de 2010

Metropolis


Não falarei do filme Matrópolis propriamente,não teria nada por agora a acrescentar a este belíssimo longa de Lang,mas volto-me para a experiencia unica que foi assistir-lo em tela grande,com musica ao vivo no Parque do Ibirapuera. Tudo nesta frase é excepcional, a oportunidade de ver um clássico em tela grande, o acompanhamento de uma orquestra,nos trazendo a sensação de como deveria ser a dobradinha cinema mudo e musica ao vivo, e o local,um parque. Ao contrario da sala escura onde o silencio impera e até um leve sussurro pode atrapalhar a pessoa ao lado,no gramado do Ibira a platéia estava compenetrada,havia silencio mas era possivel compartilhar a experiencia com a pessoa ao lado,os fumantes felizes pois podiam fumar sem ser discriminados,cachorros com seus donos,carrinhos de crianças,piquinique,uma grande comunhao.
Experiencia para guardar na memória e se perguntar porque o governo em conjunto com empresas nao patrocinam tais iniciativas mais vezez,por que só a Mostra tem boas iniciativas como esta e a bem sucedida exibição no vão livre do MASP? Uma vez a cada dois meses exibir um filme de peso em parques não pode ser mais caro que muitas bobagens escolhidas pela prefeitura e estado para cultura.
Leon Cakoff deixa a dica para a administração de São Paulo de como levar produto de qualidade para a população.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2


O que faz o herói?O que é preciso?Qual a diferença entre ele e a humanidade em geral?Eu poderia citar alguns teóricos,entre eles Campbell,falar da Arete,entretanto tio Ben ainda possui a melhor definição : "with great power comes great responsability". Grande responsabilidade...um artista não deve ficar preso a regras da sociedade,ele deve provocar, abalar de alguma maneira nossa visão de mundo,pode ser através de um soco no estômago,ou através da delicadeza,todavia ele não deve ser irresponsável. Padilha é irresponsável com Tropa de Elite 2. Pode-se argumentar que trata-se de ficção e não realidade,como uma revista cultural o fez quando do lançamento do primeiro, o comparando com Cobra,filme trash de Stalonne,oras só alguém muito ingênuo acharia que a industria cinematográfica norte-americana não possui uma ideologia!No caso,o americano médio,o homem comum com garra e vontade,aquele mesmo que construiu a nação.No caso brasileiro...temos todo o cinema viuvo do cinema novo,do cinema verdade da favela e sertão,preocupado em retratar as mazelas do povo,40 anos depois voltar no mesmo cenário,valendo-se da miséria mas discursar sobre ficçao e nada além disto é leviano!
Tropa de Elite é a ficçao no momento em que carrega nas tintas,quando constrói o cliche e chapa o conflito,e é problemático também pelos mesmos motivos.
Não estamos mais na favela apenas,no problema do tráfico e usuário, o foco é o sistema,a corrupção generalizada,introjetada na sociedade brasileira,todos os políticos são corruptos,ninguém presta, a esquerda é imbecil e ingênua por achar que ainda é possível sonhar com um mundo melhor veja só através do diálogo e do gesto democrático de eleições ( uma mudança de foco sem duvidas sobre uma visão estereotipada de barbudo comedor de criancinha,agora são todos paz e amor).
Não existe saída,mas eis que temos sim a solução,o herói caído,o herói que completa sua trajetória trágica,que se despoja dele mesmo para um bem maior e sendo assim questiona como Cristo na Cruz "Deus por que me abandonaste?":Capitão Nascimento. Neste capitulo ele sofre,pois sua família é colocada em xeque,sua corporação,sua fé,sua convicção,mas ele termina de pé,mesmo que abalado.
O longa é irresponsável no momento em que a política nao se apresenta como alternativa viável,o coronel do BOPE e seu batalhão são as únicas coisas prestáveis capazes de resolver a situação nacional, mas operando fora do sistema,não seguindo hierarquia,não seguindo as diretrizes governamentais pois tudo é podre.Um filme de ação razoável,se não tivessemos no país uma situação tão delicada como temos em termos políticos : corrupção de norte a sul e impunidade.Ela é real,e está aí por conta do sistema e do povo não politizado. Ao fazer Nascimento o paladino da virtude estamos abrindo brecha para algo assustador,um messias que venha nos salvar de nós mesmos.Exagero?Não,quando boa parte da sala vibra aplaudindo e gritando o murro que o capitão/coronel dá em um politico corrupto.Momento de catarse total e bem,já diria Bretch que conscientização e catarse não andam juntas.
O longa rende boas discussões éticas,politicas sobre nossa realidade para aqueles que vão assisti-los com olhar distanciado,mas quantos aceitam o personagem como um herói a ser achado na vida real?O golpe,Hitler,entre muitos outros episódios estão aí para provar.
A História acontece como tragédia e se repete como farsa,e estamos sempre atrás de príncipes,meus irmãos!

domingo, 17 de outubro de 2010

Como Esquecer


Como Esquecer
se insere numa nova safra de filmes nacionais que positivamente ampliam o leque de temas a serem abordados,neste caso o homossexualismo,tópico ainda timido em produtos nacionais cinematográficos,inexistente na tv (personagens gays castos sem uma vida afetiva digna de nota,assexuados não podem ser considerados).Por reconhecer esta parcela da população nacionalmente com elenco conhecido,fator que atrai publico,o longa já ganha pontos positivos,entretanto filmicamente deixa a desejar em vários aspectos.
O roteiro é adaptado do romance homonimo,os roteiristas optaram por manter a literalidade na versão cinematográfica o que torna os diálogos em alguns casos duros,engessados,e por também manter o fluxo de pensamento de Julia,a personagem principal, em voz off,dando um tom piegas e maçante em muitos momentos,por tornar tudo muito literal e repetitivo. É possível compreender de onde o fluxo de pensamento intenso vem,Julia é professora de literatura inglesa,o nome de Virginia Woolf é citado durante uma das cenas,vale lembrar que os romances da autora valem-se e muito deste diálogo do inconsciente,a grande dificuldade é como transformar esta voz interna em algo concreto na tela,uma maneira muito feliz foi a do longa As Horas,guardadas as devidas diferenças de estilo,história entre o filme ingles e o nacional,o roteirista deixou a força latente da personagem justamente para as atrizes,na interpretação,coisa que seria sim possível para Como Esquecer,pois a personagem mais bem construída e estruturada é Julia interpretada por Ana Paula Arósio,ao invés de tanta narração em off da atriz era possível deixar em nuances,em opções cênicas a dor da personagem; a atriz global mostra amadurecimento em sua interpretação e conseguiria bancar uma opção mais ousada de personagem.
Outro ponto negativo do roteiro são as lacunas deixadas,fios soltos que não se amarram,personagens jogados sem propósito,e o tom drama lésbico cliche impresso,dramático ao extremo,falta muitas vezes delicadeza na condução da história.
Apesar destas falhas reitero a importância de sua realização,ao entrar na sessão ontem a noite verifiquei o publico misto de héteros e gays,com predominância do segundo grupo,existia uma excitação normal na platéia,extremamente participativa,por ser algo novo e diferente de se ver em circuito nacional, poder ter a real identificação com aquele que esta na tela é algo mais raro para o publico GLTB ( toda história boa é universal,mas muito fácil quando se é hetero e todas as histórias de amor,drama são feitas neste padrão).


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Eu Matei Minha Mãe

Eu Matei Minha Mãe foi realizado por Xavier Dolan,um canadense de inacreditáveis 17 anos.Dirigiu,escreveu e atuou em seu primeiro longa,não o bastante o filme possui maturidade de gente grande,sem perder o frescor na ousadia de linguagem.
O longa está muito além da discussão homossexual presente nas resenhas,a orientação sexual do personagem é apenas um dos muitos aspectos que circundam a relação tumultuada com sua mãe.Quem nunca teve atritos com os pais que jogue a primeira pedra! O roteiro delicado,consegue de maneira imbricada dar conta da complexa relação entre pais e filhos,aqueles que se amam a cima de qualquer coisa,mas que nunca foi dada a opção real do não amor,o amor de mãe é o incondicional,o de filho também,mas como esta relação em que a escolha não é possível pode ser saudável? Xavier dá conta de mostrar as várias facetas do conflito,ora a mãe,ora o filho são vitimas e algozes de seus próprios caprichos. Amor e ódio são apenas dois lados da mesmíssima moeda.
A camera em planos médios e estáticos criam a sensação artificial nas relações,nada se move,estáticos como que posados os personagens se distanciam,não existe calor.Em contraponto a estas imagens o diretor cria escapes belíssimos e de açao,muitas vezes violentas.As aparencias não se encaixam nos desejos,muito mais cruéis,muito mais vivos,capturados em camera lenta. Para arrematar,a direção de arte é precisa,fazendo da casa dos personagens principais um espaço de sufocamento,de não pertencimento.
Saindo da sessão,ouvi a conversa entre dois amigos,um deles disse "imagina uma mãe vendo este filme?"Talvez fosse um interessante programa familiar...