sábado, 30 de outubro de 2010

Metropolis


Não falarei do filme Matrópolis propriamente,não teria nada por agora a acrescentar a este belíssimo longa de Lang,mas volto-me para a experiencia unica que foi assistir-lo em tela grande,com musica ao vivo no Parque do Ibirapuera. Tudo nesta frase é excepcional, a oportunidade de ver um clássico em tela grande, o acompanhamento de uma orquestra,nos trazendo a sensação de como deveria ser a dobradinha cinema mudo e musica ao vivo, e o local,um parque. Ao contrario da sala escura onde o silencio impera e até um leve sussurro pode atrapalhar a pessoa ao lado,no gramado do Ibira a platéia estava compenetrada,havia silencio mas era possivel compartilhar a experiencia com a pessoa ao lado,os fumantes felizes pois podiam fumar sem ser discriminados,cachorros com seus donos,carrinhos de crianças,piquinique,uma grande comunhao.
Experiencia para guardar na memória e se perguntar porque o governo em conjunto com empresas nao patrocinam tais iniciativas mais vezez,por que só a Mostra tem boas iniciativas como esta e a bem sucedida exibição no vão livre do MASP? Uma vez a cada dois meses exibir um filme de peso em parques não pode ser mais caro que muitas bobagens escolhidas pela prefeitura e estado para cultura.
Leon Cakoff deixa a dica para a administração de São Paulo de como levar produto de qualidade para a população.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2


O que faz o herói?O que é preciso?Qual a diferença entre ele e a humanidade em geral?Eu poderia citar alguns teóricos,entre eles Campbell,falar da Arete,entretanto tio Ben ainda possui a melhor definição : "with great power comes great responsability". Grande responsabilidade...um artista não deve ficar preso a regras da sociedade,ele deve provocar, abalar de alguma maneira nossa visão de mundo,pode ser através de um soco no estômago,ou através da delicadeza,todavia ele não deve ser irresponsável. Padilha é irresponsável com Tropa de Elite 2. Pode-se argumentar que trata-se de ficção e não realidade,como uma revista cultural o fez quando do lançamento do primeiro, o comparando com Cobra,filme trash de Stalonne,oras só alguém muito ingênuo acharia que a industria cinematográfica norte-americana não possui uma ideologia!No caso,o americano médio,o homem comum com garra e vontade,aquele mesmo que construiu a nação.No caso brasileiro...temos todo o cinema viuvo do cinema novo,do cinema verdade da favela e sertão,preocupado em retratar as mazelas do povo,40 anos depois voltar no mesmo cenário,valendo-se da miséria mas discursar sobre ficçao e nada além disto é leviano!
Tropa de Elite é a ficçao no momento em que carrega nas tintas,quando constrói o cliche e chapa o conflito,e é problemático também pelos mesmos motivos.
Não estamos mais na favela apenas,no problema do tráfico e usuário, o foco é o sistema,a corrupção generalizada,introjetada na sociedade brasileira,todos os políticos são corruptos,ninguém presta, a esquerda é imbecil e ingênua por achar que ainda é possível sonhar com um mundo melhor veja só através do diálogo e do gesto democrático de eleições ( uma mudança de foco sem duvidas sobre uma visão estereotipada de barbudo comedor de criancinha,agora são todos paz e amor).
Não existe saída,mas eis que temos sim a solução,o herói caído,o herói que completa sua trajetória trágica,que se despoja dele mesmo para um bem maior e sendo assim questiona como Cristo na Cruz "Deus por que me abandonaste?":Capitão Nascimento. Neste capitulo ele sofre,pois sua família é colocada em xeque,sua corporação,sua fé,sua convicção,mas ele termina de pé,mesmo que abalado.
O longa é irresponsável no momento em que a política nao se apresenta como alternativa viável,o coronel do BOPE e seu batalhão são as únicas coisas prestáveis capazes de resolver a situação nacional, mas operando fora do sistema,não seguindo hierarquia,não seguindo as diretrizes governamentais pois tudo é podre.Um filme de ação razoável,se não tivessemos no país uma situação tão delicada como temos em termos políticos : corrupção de norte a sul e impunidade.Ela é real,e está aí por conta do sistema e do povo não politizado. Ao fazer Nascimento o paladino da virtude estamos abrindo brecha para algo assustador,um messias que venha nos salvar de nós mesmos.Exagero?Não,quando boa parte da sala vibra aplaudindo e gritando o murro que o capitão/coronel dá em um politico corrupto.Momento de catarse total e bem,já diria Bretch que conscientização e catarse não andam juntas.
O longa rende boas discussões éticas,politicas sobre nossa realidade para aqueles que vão assisti-los com olhar distanciado,mas quantos aceitam o personagem como um herói a ser achado na vida real?O golpe,Hitler,entre muitos outros episódios estão aí para provar.
A História acontece como tragédia e se repete como farsa,e estamos sempre atrás de príncipes,meus irmãos!

domingo, 17 de outubro de 2010

Como Esquecer


Como Esquecer
se insere numa nova safra de filmes nacionais que positivamente ampliam o leque de temas a serem abordados,neste caso o homossexualismo,tópico ainda timido em produtos nacionais cinematográficos,inexistente na tv (personagens gays castos sem uma vida afetiva digna de nota,assexuados não podem ser considerados).Por reconhecer esta parcela da população nacionalmente com elenco conhecido,fator que atrai publico,o longa já ganha pontos positivos,entretanto filmicamente deixa a desejar em vários aspectos.
O roteiro é adaptado do romance homonimo,os roteiristas optaram por manter a literalidade na versão cinematográfica o que torna os diálogos em alguns casos duros,engessados,e por também manter o fluxo de pensamento de Julia,a personagem principal, em voz off,dando um tom piegas e maçante em muitos momentos,por tornar tudo muito literal e repetitivo. É possível compreender de onde o fluxo de pensamento intenso vem,Julia é professora de literatura inglesa,o nome de Virginia Woolf é citado durante uma das cenas,vale lembrar que os romances da autora valem-se e muito deste diálogo do inconsciente,a grande dificuldade é como transformar esta voz interna em algo concreto na tela,uma maneira muito feliz foi a do longa As Horas,guardadas as devidas diferenças de estilo,história entre o filme ingles e o nacional,o roteirista deixou a força latente da personagem justamente para as atrizes,na interpretação,coisa que seria sim possível para Como Esquecer,pois a personagem mais bem construída e estruturada é Julia interpretada por Ana Paula Arósio,ao invés de tanta narração em off da atriz era possível deixar em nuances,em opções cênicas a dor da personagem; a atriz global mostra amadurecimento em sua interpretação e conseguiria bancar uma opção mais ousada de personagem.
Outro ponto negativo do roteiro são as lacunas deixadas,fios soltos que não se amarram,personagens jogados sem propósito,e o tom drama lésbico cliche impresso,dramático ao extremo,falta muitas vezes delicadeza na condução da história.
Apesar destas falhas reitero a importância de sua realização,ao entrar na sessão ontem a noite verifiquei o publico misto de héteros e gays,com predominância do segundo grupo,existia uma excitação normal na platéia,extremamente participativa,por ser algo novo e diferente de se ver em circuito nacional, poder ter a real identificação com aquele que esta na tela é algo mais raro para o publico GLTB ( toda história boa é universal,mas muito fácil quando se é hetero e todas as histórias de amor,drama são feitas neste padrão).


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Eu Matei Minha Mãe

Eu Matei Minha Mãe foi realizado por Xavier Dolan,um canadense de inacreditáveis 17 anos.Dirigiu,escreveu e atuou em seu primeiro longa,não o bastante o filme possui maturidade de gente grande,sem perder o frescor na ousadia de linguagem.
O longa está muito além da discussão homossexual presente nas resenhas,a orientação sexual do personagem é apenas um dos muitos aspectos que circundam a relação tumultuada com sua mãe.Quem nunca teve atritos com os pais que jogue a primeira pedra! O roteiro delicado,consegue de maneira imbricada dar conta da complexa relação entre pais e filhos,aqueles que se amam a cima de qualquer coisa,mas que nunca foi dada a opção real do não amor,o amor de mãe é o incondicional,o de filho também,mas como esta relação em que a escolha não é possível pode ser saudável? Xavier dá conta de mostrar as várias facetas do conflito,ora a mãe,ora o filho são vitimas e algozes de seus próprios caprichos. Amor e ódio são apenas dois lados da mesmíssima moeda.
A camera em planos médios e estáticos criam a sensação artificial nas relações,nada se move,estáticos como que posados os personagens se distanciam,não existe calor.Em contraponto a estas imagens o diretor cria escapes belíssimos e de açao,muitas vezes violentas.As aparencias não se encaixam nos desejos,muito mais cruéis,muito mais vivos,capturados em camera lenta. Para arrematar,a direção de arte é precisa,fazendo da casa dos personagens principais um espaço de sufocamento,de não pertencimento.
Saindo da sessão,ouvi a conversa entre dois amigos,um deles disse "imagina uma mãe vendo este filme?"Talvez fosse um interessante programa familiar...

sábado, 18 de setembro de 2010

Reflexões de um Liquidificador

É gratificante ver o cinema nacional se libertar da polaridade sertão-favela,pois se nos anos 60 existia uma estética muito precisa embasada num contexto político o cinema da retomada a subverteu transformando-a em fetiche, estes locais,esta condição brasileira banalizou-se completamente.
Reflexões de um Liquidificador se insere na safra de longas nacionais com vertente mais indie,que flertam com o absurdo,com o comico. O tal objeto é narrador e personagem principal junto com a ótima Ana Lucia Torres,uma dona de casa simpática que tem como confidente e cumplice seu velho liquidificador,dos tempos de dona de boteco juntamente com seu marido,Onofre. O filme é um delicioso thriller,no qual o mote é o sumiço do esposo de Dona Elvira.
O suspense,todavia,é apenas a desculpa para André Klotzel falar sobre existencia. O Liquidificador quando era apenas um objeto era mais feliz exatamente por ser inanimado,por ser ignorante das complicações do ser,ao obter consciencia o pobre tem de lidar com as consequencias de seus atos e de outros,ele aprende o que é desejo,morte,sobrevivencia. Não é preciso ir muito longe,a cozinha de uma casa de subúrbio já é o mundo.
Vale dizer que Reflexões de um Liquidificador é um filme de atores,com casting preciso,os personagens tipos, estranhos, dão o tom do longa,destaque para Ana Lucia Torres, Selton Mello como liquidifcador e Aramis Trindade como o bizarro investigador Fuinha.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O terceiro mundo vai explodir... E só as baratas sobrarão!

Revendo esta ótima animação no último Festival de Curtas de SP, resolvi escrever umas breves palavras, que ficam como dica para os que gostam de animação, documentário, Hqs e o que mais acharem de tema dentro do filme!

A questão da linha tênue que divide os campos do documentário e da ficção é um assunto recorrente ao se tratar de um filme considerado como um documentário de animação, como é o caso do premiado curta-metragem “Dossiê Rê Bordosa” (2008), do diretor brasileiro César Cabral.
O cineasta trabalha de maneira inusitada e criativa a narrativa, invertendo o que seria uma entrevista comumente empregada nos documentários em um depoimento típico do gênero policial de ficção. O gênero de entrevista tornou-se quase que uma premissa narrativa no documentário contemporâneo, principalmente entre os brasileiros. Nesse contexto, muitos cineastas a trabalham de forma inventiva, até mesmo a contestando ou mesmo subvertendo sua fórmula.
O documentário animado vem ganhando espaço nos últimos anos, não só por experimentar na forma, mas também inovando na própria linguagem do documentário. Só para citar, temos os conhecidos longas “Persépolis” (2007), da cineasta e quadrinista iraniana Marjorie Satrapi (baseado em sua HQ homônima); “Valsa com Bashir” (2008) do israelense Ari Folman, sendo que ambos partem de narrativas biográficas. No que diz respeito aos curtas e sua maior liberdade para experimentações, temos um ótimo exemplo brasileiro de “O Divino, de repente” (2009), que vem colecionando prêmios nos festivais.
Com um tom investigativo, “Rê Bordosa” colhe depoimentos de personagens reais, que são substituídos ao final por bonecos de massinha filmados com a ótima técnica de stop motion. Mais do que pensar no conteúdo da história que nos é contada, “Rê Bordosa” nos presenteia com uma forma muito bem elaborada do como essa se desenrola.
Influenciado por diversos elementos importantes na história de nosso cinema, seu mote é investigar o assassinato da famosa personagem fictícia das “tirinhas” brasileiras (que dá titulo ao filme) em 1987 – em seu auge de popularidade – por seu criador: o cartunista Angeli. O filme se estrutura através de entrevistas realizadas com o próprio Angeli e com pessoas que conviviam com o mesmo naquela época, além de reconstituições que rememoravam o caso, para tentar desvendar o crime.
A narração em voz off tem uma referência clara ao cinema marginal paulista dos anos 1960 (por sua vez influenciado pelos programas policiais da rádio nos anos 1950), mais especificamente ao “Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla. O underground paulistano do clássico marginal cai muito bem nesse diálogo com o submundo dos anos 80 característico das histórias e personagens de Angeli, sabiamente transposto para a misé-en-scene de “Rê Bordosa”.
Há uma sequência dedicada ao personagem Bob Cuspe – testemunha ocular do crime – em que a personagem (tratada aqui do mesmo modo que as personagens reais) ao narrar os fatos testemunhados, tem sua memória ativada e vemos a reconstituição do assassinato: um cenário soturno e literalmente do submundo, onde Bob transita pelos esgotos da cidade sob uma trilha punk bem periférica, num clima de cinema noir decadente.
Se o crime foi desvendado pelos investigadores, nada sabemos, mas podemos dizer que a animação empregada como recurso estético deste que é mais que um documentário, foi a melhor opção e, mais que isso, a principal atração desse bem realizado curta.

domingo, 5 de setembro de 2010

REC 2


Em 1999 os responsáveis por a Bruxa de Blair assombraram publico e industria com um filme barato e com belo marketing. A idéia era realmente genial,aproveitar o uso cada vez mais comum de cameras de video caseiras para fazer um filme de terror,ou melhor um documentário,pois todas as imagens foram gravadas pelos personagens e toda trama foi feita como um registro real de algo muito macabro que teria acontecido numa floresta norte-americana. Florestas já são assustadoras por si por serem o local das forças da natureza,do desconhecido,onde o homem não tem o controle,junte cenas de pavor de algo que nunca tomar forma,nunca se manifesta na frente da camera,sendo mera sugestão e voi lá,temos um ótimo filme. Alguns anos mais tarde, a industria cinematográfica retoma a idéia original de registro pensando agora no boom da internet e documentaçao exaustiva na rede, o que não está no youtube,não existe,já está sentenciado. A partir desta premissa e voltando-se para a experiencia bem sucedida do final dos anos 90,os filmes de terror começam a sair da ficçao para quererem-se reais,ou seja o sobrenatural não mais como parte da fantasia,mas como algo possível,o que por si só já seria assustador,afinal é o grande medo,saber que o Mal não é apenas história da carochinha. Rec 2 faz parte desta leva de longas de terror.
O longa espanhol abusa do registro documental,o olhar é fragmentado na perspectiva de vários personagens que detém o poder da imagem,eles portam cameras de qualidade diversas,entretanto seu uso é tradicional, a narrativa poderia ser pulverizada na perspectiva destes diversos olhares,entretanto se matem linear,salvo raríssimas excessões onde o diretor consegue explorar um pouco melhor sua idéia estética, no primeiro registro dos personagens adolescentes quebrando o ritmo do filme,com o policial encurralado no banheiro,somos testemunhas passivas assim como os outros de sua situação, uma ou duas imagens das cameras dos capacetes dos soldados,criando a impressão da camera subjetiva do video game na qual a arma sempre aparece e os movimentos são ageis e bruscos e o aparelho com infra vermelho que grava no escuro que envoca a discussão do dispositivo fotográfico ou videografico como capaz de captar o invisível, de reter a "alma".
Com toda esta parafernália Rec2 é obssessivo em criar uma atmosfera de real,do registro,tudo é preciso ser dito para camera e um dos personagens diz a cada dois minutos que absolutamente tudo precisa ser registrado,arquivado. Nem com muita boa vontade compramos a idéia do diretor. Só verbalizando,explicando para tentarmos entender porque o longa foi feito. Uma mistura de filmes de zumbi com Exorcista e O ChamadoItálico, o filme espanhol não chega a lugar algum,fica dando voltas em torno da documentaçao do acontecimento e de um objetivo fraco que não se sustenta nem por dez minutos,conseguir o sangue da zumbi/possuida causadora primordial de toda a tragédia.